Neuropsicologia

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Quando a dor também ocupa os recursos do cérebro

Quando a dor também ocupa os recursos do cérebro
Se tantas pessoas descrevem a sensação de que “o cérebro ficou mais lento”, o que a ciência descobriu sobre essa experiência?
Durante muitos anos, as dificuldades cognitivas relatadas por pessoas com fibromialgia foram interpretadas como uma consequência secundária da dor ou como uma percepção subjetiva, sem correspondência objetiva. Hoje sabemos que essa explicação é insuficiente.
Nas últimas duas décadas, o crescente interesse da neuropsicologia, das neurociências da dor e da reumatologia permitiu compreender que as alterações cognitivas associadas à fibromialgia constituem um fenômeno complexo, multifatorial e consistente. Mais do que validar uma percepção frequentemente desconsiderada, essas pesquisas demonstram que as dificuldades relatadas pelos pacientes podem ser identificadas em avaliações neuropsicológicas e compreendidas à luz do funcionamento cerebral.
Revisões sistemáticas e metanálises mostram que pessoas com fibromialgia apresentam, em média, pior desempenho em tarefas relacionadas à atenção sustentada, à memória de trabalho, à velocidade de processamento das informações e às funções executivas quando comparadas a indivíduos sem dor crônica (Bell et al., 2018; Nicholls & Kelly, 2025). Embora a intensidade dessas alterações varie de uma pessoa para outra, esse conjunto de evidências reforça que a chamada fibrofog representa uma manifestação clínica relevante da síndrome.
Essas pesquisas também ajudam a responder uma pergunta frequente no consultório:
Afinal, o cérebro está funcionando pior?
A resposta exige cautela.
Na maior parte dos casos, não se trata de um processo neurodegenerativo, como ocorre nas demências, nem de uma perda progressiva das capacidades intelectuais. O que as pesquisas sugerem é um funcionamento cognitivo menos eficiente, influenciado por diferentes fatores que atuam simultaneamente.
Para compreender esse processo, pode ser útil imaginar o cérebro como um sistema que dispõe de recursos limitados para processar informações ao longo do dia. Em condições habituais, esses recursos são distribuídos entre inúmeras atividades: manter uma conversa, planejar o dia, tomar decisões, resolver problemas, dirigir ou aprender algo novo.
Quando a dor deixa de ser um evento passageiro e passa a fazer parte da experiência cotidiana, esse equilíbrio se modifica. A dor persistente exige monitoramento constante, mobiliza respostas fisiológicas e emocionais e compete continuamente pelos recursos cognitivos disponíveis. Como consequência, resta menos disponibilidade para outras tarefas que também dependem desses mesmos recursos.
Talvez seja justamente por isso que tantas pessoas descrevem a sensação de que pensar passou a exigir mais esforço. Não porque o cérebro tenha “esquecido” como realizar determinadas tarefas, mas porque parte de sua capacidade permanece continuamente mobilizada para lidar com uma condição que nunca deixa de exigir adaptação.
Essa hipótese, conhecida como competição por recursos cognitivos, tem recebido apoio crescente de estudos experimentais e de pesquisas em neuroimagem funcional. Hoje sabemos que a dor crônica não envolve apenas regiões cerebrais responsáveis pela percepção dolorosa. Ela também recruta circuitos relacionados à atenção, ao monitoramento do ambiente, à regulação emocional e ao controle executivo — redes fundamentais para o funcionamento cognitivo cotidiano (Glass, 2015).
Essa perspectiva ajuda a compreender por que tantas pessoas descrevem uma sensação de “cansaço mental”, mesmo após um dia com poucas atividades físicas. O esforço não está apenas no corpo. O cérebro também trabalha continuamente para processar, interpretar e regular uma experiência dolorosa que não desaparece quando uma tarefa termina.
Entretanto, reduzir a fibrofog exclusivamente à dor seria uma simplificação excessiva.
A fibromialgia é uma condição multifatorial, e essa talvez seja uma das principais razões pelas quais as manifestações cognitivas variam tanto entre diferentes pessoas.
A fadiga persistente é um exemplo importante. Diferentemente do cansaço esperado após um dia intenso de trabalho, ela costuma ser descrita como uma sensação profunda de exaustão física e mental, frequentemente desproporcional ao esforço realizado. Em muitos casos, mesmo após uma noite de sono, permanece a sensação de que o organismo não conseguiu se recuperar plenamente.
Esse estado de exaustão contínua compromete processos cognitivos que dependem de esforço mental sustentado, tornando tarefas rotineiras progressivamente mais desgastantes.
A qualidade do sono também desempenha um papel fundamental. Alterações na arquitetura do sono, despertares frequentes e a sensação de sono não reparador são altamente prevalentes na fibromialgia. Sabemos que o sono participa de processos essenciais para a consolidação da memória, a aprendizagem, a regulação emocional e a restauração de diferentes funções cerebrais. Quando esse processo é interrompido repetidamente, seus efeitos repercutem durante todo o dia seguinte.
Além disso, sintomas de ansiedade e depressão, quando presentes, também podem influenciar o desempenho cognitivo. Isso não significa que a fibrofog seja simplesmente consequência do sofrimento emocional. Ao contrário, as evidências mais recentes apontam para uma interação dinâmica entre dor, fadiga, sono, humor e cognição.
Nenhum desses fatores, isoladamente, explica a experiência da fibrofog. É justamente a interação entre eles que ajuda a compreender por que duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem vivenciar dificuldades cognitivas tão diferentes.
Essa compreensão representa uma mudança importante na forma de pensar a fibromialgia.
Durante muito tempo, predominou uma visão que buscava separar aquilo que seria “físico” daquilo que seria “psicológico”, como se essas dimensões funcionassem de maneira independente. Hoje, a própria pesquisa científica aponta em outra direção. A fibromialgia evidencia que corpo, cérebro e experiência emocional constituem um sistema integrado, no qual processos biológicos, psicológicos e sociais interagem continuamente.
Talvez essa seja uma das contribuições mais importantes das pesquisas recentes. Elas não apenas ajudam a explicar um sintoma, mas ampliam a forma como compreendemos a própria fibromialgia. Quanto mais a ciência avança, mais evidente se torna que essa condição não pode ser reduzida a uma única causa nem a uma única manifestação clínica.
Talvez compreender a fibrofog seja, antes de tudo, reconhecer que viver com dor crônica também modifica a maneira como o cérebro enfrenta as demandas da vida cotidiana.

Referências
Bell, T., Trost, Z., Buelow, M. T., Clay, O., Younger, J., Moore, D., & Crowe, M. (2018). Meta-analysis of cognitive performance in fibromyalgia. Journal of Clinical and Experimental Neuropsychology, 40(7), 698–714. https://doi.org/10.1080/13803395.2017.1422699
Glass, J. M. (2015). Fibrofog and fibromyalgia: A narrative review and implications for clinical practice. Rheumatic Disease Clinics of North America, 41(2), 309–317. https://doi.org/10.1016/j.rdc.2015.01.002
Wu, Y. L., Huang, C. J., Fang, S. C., Ko, L. H., & Tsai, P. S. (2022). Cognitive impairment in fibromyalgia: A meta-analysis of case-control studies. Psychosomatic Medicine, 84(5), 535–548.
Nicholls, T., & Kelly, K. (2025). Assessing working memory function in individuals with fibromyalgia: A systematic review and meta-analysis. Applied Neuropsychology: Adult. Advance online publication. https://doi.org/10.1080/23279095.2025.2570780
Agostinho, M., Capelas, M. L., Pimentel-Santos, F. M., et al. (2025). Disentangling interoception and its links to cognitive functioning in fibromyalgia. Scientific Reports, 15, 31403. https://doi.org/10.1038/s41598-025-15087-5

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Muito além da dor: quando a fibromialgia também afeta a atenção, a memória e o pensamento

Nem sempre a parte mais difícil da fibromialgia é a dor.

Para muitas pessoas, ela passa a conviver com outra experiência igualmente desafiadora: perceber que atividades antes simples começam a exigir um esforço incomum. Em meio às dores persistentes, à fadiga constante e ao sono que parece nunca restaurar as energias, surgem também esquecimentos, dificuldade para manter a atenção, sensação de lentidão para organizar pensamentos e a impressão de que palavras conhecidas simplesmente desaparecem.

Essa experiência costuma aparecer de diferentes maneiras no consultório.

“Entrei na cozinha e esqueci o que fui fazer.”

“Preciso reler o mesmo parágrafo várias vezes porque minha atenção simplesmente some.”

“Durante uma conversa, a palavra que eu queria dizer não sai.”

“Tenho a sensação de que meu pensamento está mais lento.”

Esses relatos aparecem de forma recorrente tanto na prática clínica quanto nas pesquisas que investigam a experiência de pessoas com fibromialgia. Ainda assim, por muito tempo, foram interpretados como simples distração, excesso de preocupação ou consequência inevitável do cansaço e da dor. Muitas pessoas ouviram que “isso acontece com todo mundo” ou que bastava descansar mais para que tudo voltasse ao normal. Outras passaram a conviver com um receio silencioso: o de que esses esquecimentos fossem o início de uma doença neurológica mais grave.

Essa preocupação é compreensível.

Quando tarefas que antes aconteciam quase automaticamente passam a exigir mais esforço, é natural perguntar se algo mudou no funcionamento do cérebro. Muitas pessoas chegam à avaliação neuropsicológica justamente com essa dúvida:

“Minha memória está piorando?”

Durante muito tempo, essas queixas receberam pouca atenção na prática clínica. Embora fatores como dor, ansiedade, alterações do sono e fadiga possam influenciar o funcionamento cognitivo, hoje sabemos que essa explicação, isolada, é insuficiente. O crescente interesse da neuropsicologia e das neurociências da dor tem mostrado que as alterações cognitivas fazem parte da experiência de um número significativo de pessoas com fibromialgia e merecem ser compreendidas com a mesma seriedade dedicada aos demais sintomas da síndrome.

Hoje sabemos que a fibromialgia é uma condição muito mais complexa do que imaginávamos há algumas décadas. A dor musculoesquelética difusa continua sendo sua manifestação mais conhecida, mas dificilmente resume a experiência de quem convive com ela.

Fadiga persistente, alterações do sono, hipersensibilidade a estímulos sensoriais, sofrimento emocional e mudanças no funcionamento cognitivo frequentemente fazem parte do mesmo quadro clínico. Mais importante ainda: essas manifestações não acontecem de forma separada. Elas se influenciam mutuamente e ajudam a explicar por que viver com fibromialgia significa enfrentar desafios que vão muito além da dor.

Entre essas manifestações, as alterações cognitivas têm despertado crescente interesse da comunidade científica. Conhecidas popularmente como fibrofog — uma adaptação do termo inglês fibro fog, frequentemente traduzido como névoa mental ou névoa cerebral —, elas descrevem um conjunto de dificuldades relacionadas à atenção, à memória, à velocidade de processamento das informações e às funções executivas. Embora não constituam um diagnóstico específico, essas experiências são hoje reconhecidas como parte importante da vivência de muitas pessoas com fibromialgia e encontram respaldo consistente na literatura científica.

Mais do que compreender um conjunto de sintomas, falar sobre essas alterações significa reconhecer uma experiência que, durante muito tempo, permaneceu invisibilizada. Quando uma pessoa relata dificuldade para organizar pensamentos, manter a concentração ou recuperar uma informação conhecida, ela nem sempre está descrevendo apenas uma falha cognitiva. Muitas vezes, está tentando explicar como a própria maneira de estar no mundo parece ter mudado.

Existe uma diferença importante entre esquecer ocasionalmente um compromisso e perceber que atividades cotidianas passaram a exigir um esforço mental muito maior. É justamente essa mudança na experiência de pensar — mais lenta, mais cansativa e menos automática — que muitas pessoas tentam descrever quando falam sobre a fibrofog. Talvez, antes de ser um problema de memória, ela seja uma experiência de sobrecarga cognitiva.

Talvez seja justamente por isso que compreender essas dificuldades seja tão importante. Não apenas para reduzir a insegurança de quem convive com elas, mas para ampliar nossa compreensão sobre a própria fibromialgia. Quando reduzimos essa condição apenas à dor física, deixamos de reconhecer a complexidade da experiência de quem convive diariamente com ela. Corpo, cérebro e emoções não funcionam como sistemas independentes. Compreender essa integração é um dos primeiros passos para um cuidado verdadeiramente biopsicossocial.

O que a psicologia e a neuropsicologia nos ajudam a compreender?

Se essas dificuldades não representam simplesmente uma perda de memória, então o que realmente está acontecendo quando uma pessoa com fibromialgia sente que pensar passou a exigir tanto esforço?

Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes quando falamos sobre a fibrofog.

No senso comum, qualquer esquecimento costuma ser interpretado como um problema de memória. No entanto, a neuropsicologia mostra que lembrar de um compromisso, acompanhar uma conversa ou organizar uma tarefa depende da atuação integrada de diferentes funções cognitivas. Atenção, memória de trabalho, velocidade de processamento, linguagem e funções executivas trabalham continuamente em conjunto, sustentando atividades que, na maior parte do tempo, realizamos sem perceber.

Isso significa que uma dificuldade para lembrar nem sempre começa, de fato, na memória.

Imagine alguém lendo um texto. A atenção se dispersa repetidas vezes, a leitura precisa ser interrompida e o mesmo parágrafo é retomado em diversas tentativas. Ao final, essa pessoa pode concluir que “não conseguiu memorizar” o conteúdo. Entretanto, talvez a informação nem tenha sido adequadamente registrada desde o início, justamente porque a atenção não conseguiu permanecer sobre aquilo que estava sendo lido.

Esse exemplo ajuda a compreender por que tantas pessoas com fibromialgia descrevem a sensação de “estar esquecendo tudo”, quando, na realidade, as maiores dificuldades costumam envolver processos relacionados à atenção sustentada, à memória de trabalho e às funções executivas. São essas funções que permitem manter informações temporariamente ativas, organizar pensamentos, alternar entre tarefas, inibir distrações e responder de maneira eficiente às demandas do cotidiano.

Na prática, isso pode significar precisar de mais tempo para concluir uma atividade, perder o fio de um raciocínio durante uma conversa, sentir dificuldade para realizar duas tarefas ao mesmo tempo ou perceber que atividades antes automáticas passaram a exigir planejamento e concentração.

Existe, porém, um aspecto que merece atenção.

Pensar também exige energia.

Embora raramente percebamos isso no dia a dia, todo processamento cognitivo demanda recursos do cérebro. Manter a atenção, tomar decisões, resolver problemas ou organizar uma sequência de ações são atividades que mobilizam diferentes sistemas neurais e dependem de um delicado equilíbrio entre eles.

Quando parte desses recursos já está continuamente envolvida no processamento da dor, da fadiga e de um sono pouco restaurador, é esperado que outras atividades cognitivas também passem a exigir mais esforço.

Talvez seja justamente essa uma das formas mais precisas de compreender a experiência da fibrofog.

Mais do que uma perda de conhecimento, muitas pessoas descrevem a sensação de que pensar deixou de ser espontâneo. O conhecimento continua presente, mas acessá-lo parece exigir um investimento mental muito maior do que antes.

Sob essa perspectiva, talvez não seja mais adequado imaginar um cérebro que “funciona pior”. Em muitos casos, faz mais sentido pensar em um cérebro que continua funcionando, mas sob condições muito mais exigentes.

 

Um convite à reflexão

Talvez uma das maiores contribuições das pesquisas sobre fibromialgia tenha sido ampliar nossa forma de compreender essa condição.

Durante muito tempo, a dor ocupou quase todo o espaço das explicações. Hoje sabemos que ela não acontece isoladamente. Ela modifica a maneira como pensamos, lembramos, planejamos, sentimos e nos relacionamos com o mundo. Modifica, muitas vezes, a forma como percebemos nossa própria capacidade e como organizamos a vida cotidiana.

Reconhecer essa complexidade não significa afirmar que toda dificuldade de memória seja consequência da fibromialgia, nem que todas as pessoas vivenciem essas alterações da mesma maneira. Significa compreender que o funcionamento cognitivo é profundamente influenciado pelas condições em que o cérebro vive diariamente — e que a dor crônica faz parte dessas condições.

Talvez seja justamente por isso que ouvir atentamente a experiência de quem convive com fibromialgia seja tão importante quanto compreender os mecanismos biológicos envolvidos na síndrome.

Quando alguém diz que “pensar ficou mais difícil”, essa frase não descreve apenas um sintoma. Ela revela uma mudança na forma de experimentar o cotidiano: de trabalhar, estudar, cuidar da família, manter relações e preservar a própria autonomia.

A neuropsicologia nos lembra que compreender a cognição é, antes de tudo, compreender pessoas.

E talvez esse seja um dos maiores desafios do cuidado em saúde: reconhecer que, por trás de cada queixa de memória, de atenção ou de lentidão mental, existe alguém tentando reorganizar a própria vida enquanto convive diariamente com uma condição complexa.

Compreender essa experiência talvez não elimine a dor.

Mas pode transformar a forma como passamos a escutá-la.

Referências

Bell, T., Trost, Z., Buelow, M. T., Clay, O., Younger, J., Moore, D., & Crowe, M. (2018). Meta-analysis of cognitive performance in fibromyalgia. Journal of Clinical and Experimental Neuropsychology, 40(7), 698–714. https://doi.org/10.1080/13803395.2017.1422699

Glass, J. M. (2015). Fibrofog and fibromyalgia: A narrative review and implications for clinical practice. Rheumatic Disease Clinics of North America, 41(2), 309–317. https://doi.org/10.1016/j.rdc.2015.01.002

Wu, Y. L., Huang, C. J., Fang, S. C., Ko, L. H., & Tsai, P. S. (2022). Cognitive impairment in fibromyalgia: A meta-analysis of case-control studies. Psychosomatic Medicine, 84(5), 535–548.

Nicholls, T., & Kelly, K. (2025). Assessing working memory function in individuals with fibromyalgia: A systematic review and meta-analysis. Applied Neuropsychology: Adult. Advance online publication. https://doi.org/10.1080/23279095.2025.2570780

Agostinho, M., Capelas, M. L., Pimentel-Santos, F. M., et al. (2025). Disentangling interoception and its links to cognitive functioning in fibromyalgia. Scientific Reports, 15, 31403. https://doi.org/10.1038/s41598-025-15087-5

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Autocompaixão: aprender a cuidar de si também é uma forma de coragem

Autocompaixão: aprender a cuidar de si também é uma forma de coragem

Há uma pergunta que, em diferentes momentos da psicoterapia, costuma produzir um longo silêncio.

“Se uma pessoa que você ama estivesse vivendo exatamente a situação que você está vivendo hoje, você diria a ela as mesmas palavras que costuma dirigir a si mesmo?”

Na maioria das vezes, a resposta é negativa.

É comum que pessoas profundamente cuidadosas, generosas e disponíveis para acolher o sofrimento dos outros mantenham consigo um diálogo interno marcado por exigência, culpa e autocrítica. Enquanto oferecem compreensão a amigos, familiares ou colegas, reservam para si um padrão de julgamento muito mais rígido, como se errar fosse incompatível com seu próprio valor.

Essa diferença revela algo importante sobre a maneira como aprendemos a lidar com o sofrimento.

Muitas vezes, acreditamos que ser duro conosco é uma forma de responsabilidade. Que a autocrítica nos torna pessoas mais disciplinadas, competentes ou comprometidas. Pouco a pouco, passamos a confundir cuidado com cobrança e responsabilidade com punição.

É justamente nesse ponto que a autocompaixão se torna um tema de grande relevância para a psicologia clínica.

O que a psicologia nos ajuda a compreender?

Apesar de sua crescente popularidade, a autocompaixão ainda é frequentemente mal compreendida. Algumas pessoas receiam que tratar-se com gentileza possa favorecer acomodação ou diminuir a motivação para mudar. Outras acreditam que ser autocompassivo significa relativizar erros ou evitar responsabilidades.

A literatura científica, entretanto, aponta em outra direção.

Autocompaixão não significa sentir pena de si mesmo, tampouco ignorar dificuldades. Trata-se da capacidade de reconhecer o próprio sofrimento com clareza, responder a ele com cuidado e lembrar que falhar, sentir medo ou experimentar limitações faz parte da condição humana.

Kristin Neff, uma das principais pesquisadoras da área, descreve a autocompaixão como a integração de três processos complementares: a atenção consciente ao sofrimento (mindfulness), o reconhecimento da humanidade compartilhada e a disposição para responder a si mesmo com gentileza em vez de autocrítica.

Talvez o aspecto mais importante desse conceito seja justamente este: a autocompaixão não elimina o sofrimento. Ela transforma a maneira como nos relacionamos com ele.

Essa mudança pode parecer discreta, mas modifica profundamente a experiência emocional.

Existe uma diferença importante entre reconhecer um erro e transformar esse erro em uma definição sobre quem somos.

Existe uma diferença entre assumir responsabilidade por uma escolha e acreditar que só merecemos cuidado quando acertamos.

Existe uma diferença entre desejar crescer e acreditar que apenas a dureza será capaz de produzir mudança.

Na prática clínica, essas diferenças costumam definir a qualidade da relação que a pessoa estabelece consigo mesma.

O que as pesquisas mais recentes mostram?

Nas últimas décadas, a autocompaixão deixou de ser apenas uma proposta teórica para tornar-se um campo consolidado de investigação científica.

Estudos realizados em diferentes países mostram, de forma consistente, que pessoas com níveis mais elevados de autocompaixão tendem a apresentar menor intensidade de sintomas de ansiedade, depressão, estresse e vergonha, além de menor perfeccionismo mal adaptativo e menor medo de fracassar. Em contrapartida, costumam demonstrar maior resiliência, bem-estar psicológico, satisfação com a vida e capacidade de enfrentar situações difíceis de maneira flexível.

Mais recentemente, pesquisas também têm explorado seus correlatos neurobiológicos. Embora esse campo ainda esteja em expansão, evidências sugerem que práticas voltadas ao cultivo da autocompaixão favorecem estados fisiológicos associados à segurança, ao vínculo e à regulação emocional, reduzindo a predominância de respostas relacionadas ao sistema de ameaça.

Esses achados ajudam a compreender por que a autocompaixão não deve ser entendida como um gesto de indulgência. Sob a perspectiva da psicologia baseada em evidências, ela constitui uma estratégia sofisticada de regulação emocional, capaz de ampliar a flexibilidade cognitiva e favorecer respostas mais adaptativas diante do sofrimento.

Por que compreender isso importa?

Na prática clínica, talvez uma das transformações mais significativas ocorra quando a pessoa percebe que pode continuar comprometida com seu crescimento sem recorrer à violência dirigida contra si mesma.

Isso não significa deixar de reconhecer erros, abandonar responsabilidades ou reduzir expectativas. Significa compreender que a mudança costuma ser mais consistente quando ocorre em um contexto interno de segurança do que sob permanente ameaça.

Esse entendimento também modifica a forma como encaramos o sofrimento psicológico.

Nem toda ansiedade decorre de circunstâncias externas.

Nem toda exaustão resulta apenas do excesso de tarefas.

Às vezes, parte importante do sofrimento é produzida pelo modo como nos relacionamos com nossas próprias limitações.

Quando toda falha se transforma em prova de inadequação, viver torna-se um exercício contínuo de autoproteção e vigilância. Pouco espaço resta para a aprendizagem, para a criatividade e para o descanso.

Um convite à reflexão

Talvez uma das perguntas mais importantes não seja se somos suficientemente gentis com as pessoas que amamos.

Talvez a pergunta seja outra.

Que tipo de relação temos construído conosco justamente nos momentos em que mais precisamos de cuidado?

Responder a essa pergunta não exige perfeição, nem respostas imediatas. Exige apenas disponibilidade para reconhecer que o cuidado, quando também pode ser dirigido a nós mesmos, deixa de ser um privilégio e passa a constituir uma forma de responsabilidade ética consigo e com a própria vida.

Referências

Ferrari, M., Hunt, C., Harrysunker, A., Abbott, M. J., Beath, A. P., & Einstein, D. A. (2019). Self-compassion interventions and psychosocial outcomes: A meta-analysis of randomized controlled trials. Mindfulness, 10(8), 1455–1473.

Neff, K. D. (2023). Self-compassion: Theory, method, research, and intervention. Annual Review of Psychology, 74, 193–218.

Phillips, W. J., & Hine, D. W. (2021). Self-compassion, physical health, and health behaviour: A meta-analysis. Health Psychology Review, 15(1), 113–139.

Kirby, J. N., Doty, J. R., Petrocchi, N., & Gilbert, P. (2017). The current and future role of heart rate variability for assessing and training compassion. Frontiers in Public Health, 5, 40.

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